| Passar de classe para “chuchar” o dedo - Apenas 1/3 dos graduados terão afectação no ensino secundário na capital do país |
| Escrito por Raul Senda e Ercília da Paz |
| Sexta, 06 Janeiro 2012 09:56 |
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É já no próximo dia 16 de Janeiro que arranca o ano lectivo 2012 no ensino primário, secundário geral e no nível técnico básico. Tal como noutros anos e contrariando o discurso político segundo o qual, o número de escolas e de crianças com acesso à educação está a crescer, muitas crianças em idade escolar continuarão sem desfrutar deste direito constitucional. O cenário é muito mais penoso nas classes transitórias nomeadamente: sexta, oitava e décima primeira.
Para o presente ano lectivo, o Ministério da Educação (MINED) abriu cerca de dois milhões de vagas para novos ingressos, 427.181 para a 6ª classe, 169.354 para 8ª e 50.654 para a 11ª classe. Hoje é sexta-feira, 06 de Janeiro de 2012, faltam três dias para o término das matrículas ora em curso. É que, oficialmente as autoridades educacionais indicaram o dia 11 de Janeiro, quarta-feira, como sendo o último dia. Porém, a realidade mostra que as inscrições só fecham no dia 11 em termos do calendário visto que na prática já não há vagas e nenhuma escola está a matricular. Mesmo na 1ª classe onde o Ministério da Educação diz que há vagas para todas as crianças, no terreno a situação mostra-se praticamente contrária. Até as 11 horas desta terça-feira, primeiro dia das matrículas, pelo menos 13 escolas na cidade de Maputo já não inscreviam novos ingressos porque as vagas tinham esgotado. Constatámos estes factos nas escolas primárias completas 3 de Fevereiro, 16 de Junho, Alto Maé, Malhazine e Bagamoyo. Na escola completa de Malhazine encontrámos muitos encarregados de educação numa situação de aflição e de revolta com os moldes em que o processo terá decorrido. José Sitoi, um dos encarregados de educação que se viu impossibilitado de matricular o seu filho devido à falta de vagas mostrou o seu desespero perante a reportagem do SAVANA. A preocupação de Sitoi resulta da facto do seu filho estar na idade oficialmente definida como sendo de ingresso a escola, neste caso seis anos. Se ficar sem estudar, no próximo ano terá sete anos e deixará de ser prioritário. Sitoe diz que podia recorrer a um outro estabelecimento de ensino mas no seu distrito as escolas estão distantes uma da outra. “Pedi despensa no serviço para matricular meu filho mas não consegui. Agora não sei o que fazer”, desabafou. Na escola primária do Alto Maé a pressão também foi enorme e até ao final da manhã da terça-feira, todos os 174 lugares disponíveis já estavam ocupados. Cenário oposto Enquanto noutras escolas clama-se pelas vagas, por outro lado, verificámos que também havia escolas cuja ocupação de vagas disponíveis não passava dos 25 por cento. Testemunhámos isso na escola Primária a Luta Continua, zona nobre da cidade de Maputo e localizada a menos de 10 minutos da escola 3 de Fevereiro. Até ao meio dia da terça-feira, a escola a Luta Continua tinha conseguido preencher 74 vagas das 231 existentes para a 1ª classe e duas num total de 232, referentes a 6ª classe. “O processo da matrícula está a decorrer normalmente, os pais estão a afluir mas não massivamente, pois até esta hora o número dos que matriculamos não chega aos 100 alunos no total, se calhar amanhã é que teremos o número já esgotado, pois as pessoas deixam as coisas para a última hora,” observou o director da Escola, Arlindo Massingue Alguns encarregados que se faziam chegar nesta escola no início da tarde, ao questionarmos a demora destes, muitos justificaram que vinham de outras escolas porém, já não havia vagas. Brígida Laisse, representa uma das encarregadas que procurou nas primeiras horas a Escola Primária da Coop para matricular a sua educanda porém, o número de vagas não permitiu que tal acontecesse. “Venho da Escola da Coop, as vagas acabaram, não tive outra saída se não recorrer a esta pois, a primeira seria ideal, uma vez que vivo perto e isto facilitaria a miúda na ida assim como na vinda da escola “, justifica Brígida. Outro encarregado que se queixou de ter perdido vaga na Escola Primária 3 de Fevereiro, e por essa razão correu para a escola mais próxima para ver se conseguiria foi Carlos Madeira. “Não saí tarde de casa, pedi a minha mãe que fosse matricular o meu filho na Escola 3 e Fevereiro mas, não conseguiu e só agora ela teve essa informação de que as vagas esgotaram e para não correr o risco de perder em todo o lado, achei melhor abandonar o trabalho e vir tentar aqui”, afirmou Madeira. Preferências A busca por uma escola que responde as expectativas dos encarregados é maior de tal forma que não se mede o esforço para atingir o objectivo almejado. Este é o sonho de muitos encarregados que olham para a Escola Primária 3 de Fevereiro, como a ideal. Anualmente é característico nesta instituição pessoas que passam a noite aguardando a abertura das portas. Este ano não foi diferente e muitos encarregados passaram a noite da segunda para terça-feira, como forma de garantir uma vaga porém, nem todas saíram do local com a mesma satisfação. “Cheguei aqui as 3h de madrugada, mas não consegui a vaga para a minha neta. Estou triste porque se matriculasse aqui seria benéfico pois o mesmo transporte que leva os irmãos, levaria a ela também e residindo no bairro Polana Caniço é complicado para uma criança, “explica Albertina Cossa “Foi uma luta que enfrentei para ver o meu filho numa escola que fornece boas condições para uma criança progredir academicamente. Cheguei as 23h e valeu a pena”, afirmou dona Zaida, residente no bairro de Magoanine. A felicidade da dona Zaida contrastava-se com a tristeza de Cláudio Pontes. Em declarações ao SAVANA disse: “estou mesmo desmoralizado, cheguei as 5h vindo de Costa do Sol convicto que veria a minha filha estudar na mesma escola que o primo, infelizmente não consegui a vaga o que me resta é procurar uma outra escola para matricular”. A concorrência por esta escola é comprovada pela hora em que se esgotaram as vagas. Até ao fim da manhã do primeiro dia das matrículas a Escola Primária 3 de Fevereiro já não tinha vagas para novos ingressos da 1ª classe. Segundo a directora da mesma, não entende o porquê dos encarregados afluírem mais nesta, mesmo existindo outras por perto. “Começamos a trabalhar as 8h e já não temos vagas. Eram no total 139 e já foram preenchidas. Realmente as pessoas dormiram aqui, não sei porquê, uma vez que a nossa escola não é reabilitada há bastante tempo e também os professores que temos são os mesmos com qualquer outra escola. A Escola a Luta Continua ainda tem vagas mas as pessoas não se conformam e permanecem aqui,” fala Linda Elija, directora da Escola O sentimento da Linda Elija é compartilhado por Samuel Buque, chefe de Departamento de Planificação da Direcção de Educação da cidade de Maputo. Buque diz que até ao momento não percebe o que faz com que os encarregados optem por uma escola em detrimento da outra não obstante as duas localizarem-se em zonas muito próximas. Conta Buque que a cidade de Maputo está preparada para albergar todas as crianças que vão ingressar na escola pela primeira vez pelo que não há motivos para preocupações. Em todos os sub-sistemas de educação, a cidade de Maputo possui, para o curso diurno, um total de 95.368 vagas dos quais 23.181 são para a 1ª, 24.909 para 6ª, 17054 para 8ª e 6102 para a 11ª classes. Este número representa um decréscimo de cerca de 15 mil efectivos quando comparado com o ano passado que a capital do país abriu cerca de 110 mil vagas. Segundo Buque a redução resulta do decréscimo da população estudantil que ingressa pela primeira vez na escola, do facto do ensino privado ser cada vez mais forte que o ensino público, da redução da taxa de natalidade e da tendência das pessoas, sobretudo jovens casais, de sair do centro da cidade para os bairros de expansão. Classes transitórias: Uma verdadeiro “dores de cabeça” Tal como se verifica em todo o país, a cidade de Maputo também está a enfrentar sérios problemas de vagas nas classes transitórias. Segundo Buque, apenas 1/3 dos graduados tiveram afectação no ensino secundário. Isto leva a crer que mais de 60 % dos graduados das classes transitórias vão “chupar” o dedo. “A nossa previsão era de ter 17 mil vagas no secundário mas o aproveitamento académico registado na 10ª classe afectou os nossos planos”, disse acrescentando que em 2011 foram graduados cerca de 22 estudantes na 7ª classe contra oito mil graduados da 10ª classe. O chefe da Planificação da Direcção da Educação da cidade de Maputo aponta como alternativa o ensino a distância onde neste ano introduziu-se o sistema de afectações. A Educação ao nível da capital prevê afectar cerca de 2400 alunos no ensino a distância. Soubemos de Samuel Buque que a cidade de Maputo vai contar, no presente ano com um universo de 322.943 alunos assistidos por cerca de cinco mil professores em 137 escolas. |